Entrevista com a vice-diretora da Escola de Estudos de Museus, da Unversidade de Leicester

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Entrevista com a Dra. Sheila Watson, vice-Diretora do
Departamento de Museologia da Universidadede de Leicester, Grã-Bretanha,
realizada por Cláudia Porto* a convite do British Council.

A Dra. Sheila Watson, professora e vice-Diretora do Departamento de Museologia da Universidadede de Leicester, esteve no Brasil este mês como convidada do British Council, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UNIRIO e do Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST, com o objetivo de conhecer museus cariocas e ministrar a palestra da aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio – PPG-PMUS.

Segundo o British Council, a visita da Dra. Watson ao Rio de Janeiro “representa um movimento importante na direção de uma parceria entre a a primeira faculdade de museologia do mundo e o primeiro curso de graduação em museologia do Brasil.” A palestra – que encheu o auditório do MAST – abordou formação e atuação na área de museus, perspectivas profissionais no campo nacional e global e exemplos de atuação social dos museus britânicos.

A Universidade de Leicester tem sido um dos mais influentes geradores de ideias no campo da museologia. O Centro de Pesquisa em Museus e Galerias vem desenvolvendo, ao longo da última década, um programa de pesquisa inovador e rigoroso que pauta políticas e práticas, inspirando experiências internacionais.

Qual o principal foco do curso da Escola de Museologia da Universidade de Leicester?

Nós temos dois cursos de pós-graduação na Escola de Leicester: Estudos de Museus (Museum Studies) e Estudos de Museus e Galerias de Arte (Art Museum and Gallery Studies).

Um dos nossos principais focos é fazer com que os alunos pensem construtivamente sobre como trabalhar museus e galerias. Queremos desafiar as ideias preconcebidas de museu e explorar os diferentes modos de despertar os sentidos, a emoção e o engajamento do público em sua relação com o objeto. Discutimos também a ética museológica e, claro, apresentamos um panorâma histórico dos museus e da museologia.

Os cursos têm uma parte teórica e uma sólida prática museal. A escola tem coleções e espaços de exposição nos quais os alunos trabalham. Esses espaços contam com toda a infraestrutura de preservação, segurança, iluminação etc. que um museu deve ter como padrão ideal.

É fundamental desafiar os estudantes e, ao mesmo tempo, dar-lhes suporte teórico e material. Em Leicester, podemos dar uma pedra a um aluno para que ele crie para ela, por exemplo, um projeto educativo; e disponibilizamos especialistas com que esses alunos possam trabalhar, de modo a tornar a experiência ainda mais rica e interessante. Deixamos os alunos completamente livres para escolherem seus temas e criarem as exposições.

A avaliação não se encerra quando a exposição é montada e aberta à visitação. Nesse momento, surge uma nova fase, na qual o público visitante faz uma crítica àquela exposição. A avaliação do público é levada em conta na nota final.

Além desse trabalho, os estudantes estagiam por oito semanas em um museu real, trabalhando num projeto que seja do interesse do aluno e do museu.

O resultado de todo esse processo é tão positivo que os museus competem pelos estagiários, o que também permite que os estagiários escolham em que museus irão trabalhar. E isso pode acontecer em qualquer museu da Grã-Bretanha, de museus imensos como o British Museum até pequeníssimos museus locais.

O curso completo de pós-graduação em Leicester dura um ano, ao longo do qual o aluno determina a área em que deseja se especializar. Ao final, o estudante deve entregar uma dissertação ligada ao museu em que fez o estágio.

Gostaria de frisar que Leicester também oferece cursos à distância: “Estudos de Museus”, “Interpretação, Representação e Patrimônio”, “Estudos de Educação e Público em Museus e Galerias”, e “Patrimônio Digital”.

Qual o perfil dos estudantes? Eles são diferentes dos estudantes que a escola tinha há dez anos, por exemplo? O que eles procuram no curso?

Acho que a diferença mas significativa seja a geográfica, pois temos recebido muitos alunos dos Estados Unidos e do Canadá ultimamente, além de chineses e japoneses. Temos estudantes de 17 diferentes nacionalidades, o que possibilita uma intensa troca multicultural em sala de aula.

Acha que o estudo da museologia precisa incluir disciplinas como administração, marketing, captação de recursos e educação?

Nós tratamos de todas essas disciplinas no curso de Leicester. Certamente todas elas são essenciais para que se exerça um trabalho de alta qualidade nos museus.

Como preparar futuros profissionais de museus para lidar com conceitos complexos como mito e memória?

Esta sua pergunta é particularmente interessante para mim, já que minha área de pesquisa é voltada para mito e memória. A memória é uma construção muito fluida e, ao mesmo tempo, é parte da nossa identidade, como indivíduos e como sociedade. Como tratar de algo de que as pessoas “se lembram”, mas que nós sabemos que nunca aconteceu? Eu dei um exemplo com relação a esse assunto, quando contei, em minha palestra [no MAST], o caso do museu em que tive a oportunidade de trabalhar, numa vila de tradição pesqueira cuja economia havia decaído com o passar dos anos. Os habitantes “se lembravam” de que, na época áurea da povoação, era possível atravessar o canal da vila de barco em barco, tal era movimentada a economia local. Mas, segundo nossas pesquisas, isso jamais aconteceu. O que fizemos foi respeitar aquela memória, trabalhar com ela e não impor à vila a realidade dos fatos. O resultado foi um museu criado desde o início em conjunto com a população, que ajudou a idealizá-lo e, sete anos depois, viu o projeto se concretizar e se tornar parte ativa da pequena cdade.

Esse processo – de como tratar mito e memória num museu contemporâneo, de marcada função social – não é simples. São necessárias muitas discussões, muita análise crítica em sala de aula, muito estudo de textos teóricos e muita pesquisa sobre casos reais.

Os estudantes estão, hoje, mais preparados para dessacralizar vultos históricos e objetos, em comparação com o que (não) acontecia no passado?

Faz parte da cultura da Grã-Bretanha o hábito de brincar e, mesmo, de criticar suas figuras públicas, inclusive as mais importantes. Por isso, não creio que a dessacralização de vultos históricos ou de objetos seja um grande problema para os estudantes ou os profissionais britânicos. Temos outros problemas, claro, mas esse não é um deles.

Que conselho daria aos estudantes brasileiros, para que eles possam estar melhor preparados para enfrentar o bravo novo mundo dos museus?

Não tenham medo de questionar, de duvidar, de experimentar, de pensar e de fazer as coisas de um jeito novo.

A Universidade de Leicester tem interesse em desenvolver algum tipo de parceria ou projeto em conjunto com o Brasil?

A minha vinda ao Brasil é, de certa forma, um primeiro passo para analisarmos que tipo de oportunidades podem ser abertas. Estamos ainda no início do caminho e muitas propostas poderão surgir, envolvendo projetos com estudantes brasileiros e britânicos ou outras iniciativas. Gostei muito do que vi aqui, nos museus e na aula no MAST/UNIRIO e acho que haverá muitas oportunidades de interação.

O site da Escola de Museologia da Universidade de Leicester pode ser acessado a partir do link: http://www2.le.ac.uk/departments/museumstudies.

Cláudia Porto é museóloga, com especialização em Conservação de Obras de Arte em Florença, Itália e MBA em Gestão Empresarial pela UFRJ. É presidente da Comissão de Informação e Divulgação do COREM 2a.Região.

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